segunda-feira, 8 de julho de 2013

Você se Parece Com o Que?

Toda vez que entro de férias do curso que ministro no Leblon, deixo de lado os livros tão presentes em minha vida e me ponho a ser pesquisador em banca de jornal.
Adoro, para descansar a cabeça, folhear revistas e como um devaneio descompromissado me ponho a ler uma a uma. São pinçadas revistas de decoração, de psicologia orientada para o público feminino, bem como outras tantas.
No sábado estava com espírito buscador de ineditismos e lá fui com olhos aventureiros a procura de algo novo. Encontrei uma revista linda, folha e capa de primeira e com adrenalina comprei-a. 
Preparei-me para fazer a descoberta e com a manta me aninhei. 

Ao abri-la vi que se tratava de uma revista sobre festas cool e DJs. Que decepção a minha. Nada a ver comigo. Só tinha comprado esta. 
Nada a fazer!
Comecei então a pensar nos questionamentos que havia colocado no quadro na última aula deste semestre.

“- Qual a sua maior identificação atual?”
  - Você está parecido com o que?
  - Você está parecida com quem?”
A minha revista estava destituída de qualquer elemento identificatório comigo. Era um significado que não se tornou significante. Eu, portanto não tinha identificação alguma com ela.
Pensei nas identificações que temos na vida.
Você pode se identificar com mar ou piscina, cidade ou floresta, com cão ou com gato, com filme francês ou americano, com cabala ou com o budismo. Cada coisa irá definir a sua pessoa, o seu estilo e o seu perfil.
Mas além dessas existem também as identificações com as circunstâncias, com os sentimentos, com as realidades e com os acontecimentos positivos ou negativos.
Você já se fez esta pergunta? Já se indagou o por que você carrega um sentimento há tanto tempo?
Você está parecido com o que? Com o abandono que alguém trouxe a você e passou a viver como abandonada?
Você está parecida com o vazio de uma ausência e se tornou o vazio?
Está sem perceber fixada nas situações que criam apenas os sentimentos ruins? 
Deixou de se identificar com as coisas que estão corretas e boas e está projetada nas identificações negativas?
Se sim, está então na leitura da revista errada que não trará nada de construtivo para você.
Identifica-se apenas com os vazios, as doenças, os remorsos e as faltas? Tem dúvida que o seu rosto será o reflexo do que você se identifica?
Como Freud afirma, é através das nossas identificações que estruturamos nossa realidade psíquica e através dela é que vamos sentir a vida.
Tornamo-nos coerentes com aquilo que nos fixamos, identificamos e introjetamos.
Se você só se alimenta das coisas que faltam ou que estão com defeito de modo algum poderá sentir satisfação em si mesmo, em relação à vida ou em relação à alguém.
Somos modelados através daquilo que mais olhamos.
Toda vez que alguém descobre no curso que sou filho da Virgínia, aquela que realiza palestras sobre testemunhos de vida em vários locais, ouço: “Você se parece com ela.”
É fato! No modo de ser por me identificar com muitos aspectos dela e também de meu pai, assimilei e tudo passou a fazer parte da minha psicológica corrente sanguínea.
Já percebeu se você está reproduzindo algum padrão de comportamento da sua avó melancólica?
Você está parecido com o seu tio amargo?
Você está parecida com a sua mãe ressentida?
Você se torna a imagem e semelhança de suas identificações conscientes ou inconscientes.
Encontrei por acaso um conhecido que há muito não o via e que me contou que teve um problema no ligamento do tornozelo esquerdo. Contou-me que ficou um mês sem poder colocar o pé no chão. De muleta depois de uns dias se tornou impossível andar, pois machucava a palma das mãos. Disse-me que se pôs a encontrar uma solução. Como atendia em casa para trabalhar era mais fácil, mas para realizar a rotina diária tudo estava complicado. Parou, pensou com identificação em encontrar uma solução e a mente então trabalhou sob este comando e criou uma alternativa para ele: Imaginou uma mochila nas costas para carregar o que precisava de um lado para outro e para ficar livre da muleta passou a engatinhar... Ao se dar esta solução encontrou um modo de se perspectivar. Impediu-se de se identificar com a limitação e buscou uma identificação operacional, produtiva e positiva.
Mudou o seu foco. Olhou e elegeu para se identificar com a perspectiva de uma solução.
Mudanças de foco é um ato de amor, de amizade a si, de generosidade e gratidão com o tempo que a vida nos oferece para viver.
Ganhei na última aula de uma aluna um livro intitulado “Poesia Completa de Manoel de Barros” da editora Leya, que achei a minha “cara”! Ao abrir me deparei com um trecho que transcrevo:
“Ando muito completo de vazios.
Meu órgão morrer me predomina.
Estou sem eternidades...
Enfiei o que pude dentro de um grilo.
Essas coisas me mudam para cisco...
Estou deitado em compostura de águas.
Na posição de múmias me acomodo.”
Assim se fez este interlocutor... Enfiou a vida em algo mínimo, que o fez cisco, e se posicionou como múmia a espera de outra vida para viver... Se tornou isso pois assim elegeu esta forma de ser para se identificar. Se fez pequeno, se fez cisco e se tornou múmia. Engessou-se para as perspectivas e se tornou petrificado.
Você sabe se dizer?
Vai se colocar deitado como múmia a espera de outra encarnação para ser o que pode ser agora?
Comece engatinhando... Com o tempo você irá se equilibrar nas boas identificações. Naquelas que trazem a melhor versão de você mesmo.
Eu, como se diz, não morri na praia.
Fui à banca, expliquei-me e troquei por outra revista.
Remova as identificações que mumificam e engessam as linhas negativas de ser.
Escolha bons momentos para se identificar, boas pessoas para se modelar e se perspective através das identificações positivas.
Saiba Ser.
Você se parece com o que?
Pode ter certeza: com aquilo que você escolhe para se identificar.

Imagens: GettyImages



segunda-feira, 1 de julho de 2013

Afogado em Si ou Salvo?

Desde sábado estou com uma indagação que será a essência da aula que irá, nesta semana, encerrar o semestre letivo.
“O que você precisa fazer para dizer daqui a um ano que a sua crise atual foi a melhor coisa que poderia ter acontecido com você?”
Essa reflexão me reportou aos meus dezoito anos, em que após ter feito vestibular para medicina na Gama Filho e ter ficado em reclassificação, decidi fazer vestibular para Administração de Empresas na Cândido Mendes-Ipanema, pois tinha muitos amigos que estavam naquela faculdade. Passei, tomei a decisão de cursá-la e mesmo sem ter sido uma escolha de vocação fui até o fim.
Acabei por me tornar aos 23 anos professor assistente da cadeira de O&M para a turma do segundo período de Administração e da cadeira de TGA para a turma de Direito e posteriormente fui convidado para dar aula na Fundação Getúlio Vargas, nos cursos do Cademp onde ministrei por 5 anos a cadeira de O&M. Aos 28 anos trabalhava na Supergasbrás além das atividades simultâneas de professor.
Apesar da competência e do sucesso detestava esse mundo de escritórios e ambição de escalonar cargos e chefias. Comecei a perceber que a minha tristeza estava relacionada ao fato da minha alma estar fora do lugar. Me inseri numa realidade na qual ela não se reconhecia  e que eu não tinha identificação alguma.
Um dia, diante de uma profunda tristeza, olhei pela janela do 13º andar do escritório no Centro do Rio e me fiz a grande pergunta: “Você vai aguentar essa profissão para o resto da vida?” Me lembro que tive medo da resposta e com coragem respirei fundo e deixei-me escutar a voz do meu pensamento portadora da grande verdade: “Não pertenço a este mundo no qual me inseri... E não quero aguenta-lo”.
Essa pergunta que me fiz me reporta a grande questão Nitzchiniana - “Você poderia viver a vida que você está construindo por toda a eternidade?”.
Comecei a partir daquele momento a me organizar mentalmente e financeiramente para mais tarde dar o grande passo da minha existência. Aquele que me trouxe a este momento.
Abandonei o que deveria ser abandonado e iniciei uma outra carreira. Tudo com muitas dúvidas, mas com uma grande sensação de liberdade.
Às vezes temos que fazer escolhas profundas para construir a vida que vale a pena ser vivida.
A vida que tenho hoje é fruto da minha decisão.
Somos sempre o resultado de nossas escolhas, sejam elas covardes ou corajosas.
A grande crise daquela época se tornou a grande oportunidade porque a vi como forma de Reinvenção.
Li na coluna Gente Boa, do jornal O Globo da edição de domingo, 30/06, o triste destino de Sonia Schuller, ex-miss, ex-namorada de Rubem Braga, na excelente matéria de Cleo Guimarães. Aquela que era favorita no concurso de Miss Guanabara 1964 e que se tornou vice ao perder o título para Maria Raquel de Andrade, acabou como pedinte nas ruas de Ipanema e Leblon. O irmão diz que a desgraça da vida dela começou em 1986 depois que a moto a atropelou perto da Praça General Osório em Ipanema. Diz ele que naquele dia ela perdeu os dentes e a autoestima.
O que aconteceu com a Sereia?
As esperanças foram atropeladas, perdeu os dentes e deixou de sorrir para os sonhos que a movia.
A Sereia lamentavelmente se tornou um esqueleto de peixe desolado. A mesma que recebeu uma ovação unânime que a levou a ser a capa da revista O Cruzeiro é a que se torna matéria do O Globo.
A Sereia se afogou nas desilusões da vida quase desistida...
Olho a foto dela hoje e percebo a menina afogada, mas ainda viva.
Perdida na intensidade dos sustos e das decepções foi se clivando até se tornar dividida e portanto fracionada na capacidade de permanecer com discernimento diante da vida.
A vida exige olhos corajosos, exige pulso sobre o destino e a contínua descoberta de motivações para viver.
Penso no meu menino Manoel que encontrou a motivação que me fez ultrapassar tantos atropelos sem perder a bússola que me indicava o caminho dos meus propósitos.
O importante é que a cada acidente, a cada atropelamento de sonhos ou de escolhas, se saiba sempre coroar a ideia que cabe muitas boas versões de você mesmo numa mesma vida.
No fundo a Sonia esta longe de deixar de existir, ela ainda guarda uma princesa, apenas desistida de segurar os bons pensamentos para se perspectivar com lucidez.
- Qual a versão da vida que posso me dar diante desta versão que a vida me trouxe?
- Qual é a vida que adoraria me orgulhar de ter construído diante daquela que o destino construiu para mim?
Enquanto há vida há sempre alguma forma da sereia sair do fundo do mar...
Hoje escrevo esta crônica porque me apropriei de mim mesmo. Porque num dado momento tomei a decisão... Porque não quis atropelar o que minha alma sonhava. Não me afoguei nos dilemas.
Abandonei um papel para encontrar a minha pessoa.
Posso dizer que me comoveu ver a sereia desistida devido às tantas desistências que vejo de outras sereias e de outros botos.
Vejo tantos sonhos se afogarem e se tornarem banhados de lágrimas...
O Brasil ganhou a Copa das Confederações num jogo de potência...
Para ganhar suou muito a camisa...
Melhor suar a camisa no jogo... do que molhar os lenços nos lamentos das desistências...
Viva o Brasil!!!
Salve, Salve as sereias dos afogamentos...
Salve sempre a si mesmo!
_______________

Se tivesse afogado minha alma nas desistências, jamais teria chegado a este momento do livro e da crônica. A essência destas letras pensadas, está no exato momento em que olhei da janela e decidi, apesar do frio que senti em meu interior, que não era honesto de minha parte ser infiel à vocação que a vida me aportou. Mais do que estar nessas listas, mais do que vencer concursos, o importante é sempre fazer de olhos abertos a vida que vale a pena.
1) Lista dos mais vendidos da Livraria da Travessa:

O Castelo de Papel
Mary Del Priori

1942 O Brasil e sua Guerra quase desconhecida
João Barone

Tempos Faturados: Cultura e Sociedade no Século XX 
Eric Hobsbawn

Pense Bem: Ideias para Reinventar a Vida
Manoel Thomaz Carneiro

Crianças Francesas não fazem Manhã
Pamela Druckerman


2) Lista da Revista Veja Online: 
Livro Pense Bem – ocupa o 14º lugar dos mais vendidos em todas as seções.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

terça-feira, 25 de junho de 2013

Crônica Indignação e Mudança e Lista do Publish News

Rio de Janeiro, manifestação do dia 17 de junho de 2013

Indignação e Mudança

Temos testemunhado surgir um movimento de reinvindicação em massa.
Surpreendi-me com a manifestação e com alegria percebi que a indignação deixou de ser a conversa entre chopes nos bares, onde reformadores, por vezes muito irados, palestravam nas mesas entre pizzas fatiadas e bolinhos azeitados, com potentes projetos, mas sem nenhum ato concreto, sem atitude alguma relacionada às ideias desenvolvidas.
As querelas nos bares, nos restaurantes, nas reuniões de fim de semana agora saíram das malemolências brasileiras, onde tudo se aceitava e que se tornava no máximo esquete de quadro humorístico, mas sem ativismo algum produtivo. 
As passeatas me reportaram a um texto de Freud que discorre sobre a formação dos laços sociais através das identificações comuns. Como se a união em torno de um princípio de identificação comum formasse o totem coletivo. Todos juntos para deixar emergir no mundo real a força das ideias. 
Como uma bola de neve um grupo despertou outro, outro e outro de modo a perfazer o coletivo manifesto.
Isso tudo me lembrou do processo de transformação individual de uma pessoa diante do sofrimento. Enquanto ela apenas indignada reclama, apenas põe a raiva sob o desabafo, permanece inativa sem se constituir como um agente capaz de assumir a responsabilidade por si mesma.
O manifesto atual nos propicia a lição para a nossa vida pessoal. Ao observarmos a transformação da indignação em consciência dos direitos para a partir dela começar a realizar a manifestação interna, capaz de eliminar o traço inimigo, opressor de si mesma que a expõe a passividade diante de si, do destino e dos outros.
Na vida individual a mudança deixa de ser realizada enquanto a pessoa não estabelece o compromisso com as interdições necessárias às transformações.
Como disse Lacan há momentos na vida que necessitamos liberar o “Pensamento Mágico” e acrescento ainda que deve associá-lo ao esforço concentrado da Razão Humana Intencional.
Um país pode ser utilizado como símbolo de reflexão para o nosso mundo pessoal.
A passividade e a submissão despertam o carrasco e legitima a impunidade, pois nessas formas passivas e enfraquecidas as leis se diluem e desaguam. Na vida pessoal se faz semelhante: Se não somos os mantenedores de nossa ordem e nosso progresso o caos se estabelece.
No meio dos movimentos de equilíbrio pacíficos surgiram os vândalos, depredadores e representantes na sociedade das psicoses coletivas. 
Esses predadores sociais e urbanos localizados nas camadas inferiores da pirâmide social são reflexos de outros depredadores das camadas superiores da pirâmide hierárquica.
Os representantes das leis se tornam as leis da ordem psicótica onde tudo pode, pois o outro deixa de existir. Aqui podemos colocar mais uma ideia freudiana para explicar que as manifestações comportamentais são suscitadas pela interação de uma pessoa com outras pessoas ou pela mera expectativa dessa interação... Portanto, num mimetismo se faz embaixo o que no “paraíso celestial” está projetado como modelo: Depreda-se o que deveria ser mantido, melhorado ou construído.  Dessa forma se realiza o “Espelhamento das Psicoses”.
Você quer melhorar a sua vida psicológica?
Você quer sair do seu prejuízo emocional cotidiano?
Aprenda com esses jovens reivindicadores, os pacíficos, porém sadios e potentes demandadores de mudança.
Baudelaire disse: “Não se destrói realmente a não ser o que se substitui”.
Portanto substitua sua indignação de mesa de bar, de querelas sociais de tristezas para uma passeata interna.
Desenvolva a capacidade de governar a própria existência com intenção e inserção na construção de uma economia psíquica de alto nível.
O importante é que se aprenda com esta juventude sobre o manifesto para reduzir a inflação de egoísmo, os valores de vida frágeis e sobre a desorganização cotidiana.
Como afirmou Helena Celestino na coluna de Domingo do Jornal O Globo edição do dia 23 de junho “Pequenos protestos viraram movimento de massa na Inglaterra, França, Suécia e Turquia. Desemprego, crise econômica, conflitos étnicos... Agora chegou a vez do Brasil: a garotada botou o povo na rua e o mundo está perplexo. Por que o país campeão do otimismo, bom de futebol e de música, depois de uma década de crescimento... está com tanta raiva? As respostas que todos já deram violência policial... corrupção, impostos de Primeiro  Mundo com serviços de quinta, atenção zero a educação...”
Semelhante aos sofrimentos sem mando, ao se deixar ser sequestrado pelos destinos, você se oferece ao desatino de uma destinação a deriva. Uma pessoa desatenta de si mesma é como um país sem Olho Vivo. Torna-se refém do acaso, do destrato, da perversidade e do egoísmo. Sem vigilância o ruim não pede licença para chegar. O ruim perde a cerimônia.
Isso mesmo... Indignação e Atitude.
Tudo é uma questão de decisão.
Na vida emocional, pessoal, econômica e política, o que fazer?
Olho Vivo na sua Ordem e no seu Progresso.
Pessoa desatenta é Out...
Portanto: Indignação e Mudança.
Mude também o seu país interior.
Ordem e Progresso!
__________________

Lista do Publish News:
O livro entrou na lista do Publish News, a lista do mercado editorial, em 10º lugar na primeira semana.

1º - Kairós
Padre Marcelo
Principium
6277




2º - Casamento blindado
Renato e Cristiane Cardoso
Thomas Nelson Brasil
2520





3º - Eu não consigo emagrecer
Pierre Dukan 
BestSeller
2115





4º - Só o amor consegue
Zibia Gasparetto
Vida e Consciência
2053




5º - Meu jeito de dizer que te amo
Anderson Cavalcante
Sextante
1548


6º - O poder do hábito
Charles Duhigg
Objetiva
1018





7º - Nietzsche para estressados
Allan Percy
Sextante
937





8º - O método Dukan ilustrado
Pierre Dukan
BestSeller
911



9º - De bem com o espelho
Alice Salazar
Editora Belas Letras
754




10º - Pense bem
Manoel Thomaz Carneiro
Casa da palavra/LeYa
733

terça-feira, 18 de junho de 2013

Desfazer Laços Para Desfazer Nós? Pertencer é Viver

Recebi uma foto de uma menina que perdeu a mãe na guerra e no chão do pátio do orfanato desenhou com giz a figura de uma mulher e depois se deitou sobre a mãe simbólica como buscasse se aconchegar no colo daquela que não existia mais... Ficou ali parada como se estivesse sendo acolhida da profunda sensação de desamparo e saudade que carregava em si.


Esta imagem da menina sobre a mãe de cimento, a mãe onírica me comoveu a ponto de revê-la algumas vezes. Quando a tinha sob os meus olhos me reportava aos conceitos sobre nossa vida intrauterina e toda a correlata condição de perfeição que vivenciamos durante esses noves meses e me levei também a pensar sobre a nossa necessidade psicológica de ter um “outro” em nossa vida que nos propicie a sensação indispensável de amparo.
Qualquer ser deseja encontrar alguém em que se possa confiar e contar.
Quem deixa de sonhar com esse amparo?
Conquistar esta certeza do outro apazigua nossas inseguranças e fortalece nossa confiança para se viver o cotidiano. Necessitamos beber dessa fonte de amparo, assim como necessitamos de água.
As mães sem nome, aquelas que perderam os filhos por alguma doença ou acidente que agora irão receber a benção do Papa, representam na união entre elas, essa busca para a formação do colo acolhedor e apaziguador desenhado pela menina órfã.
Quando nascemos somos muito abraçados e por vezes com o tempo esses abraços se tornam rarefeitos e se reduzem a esbarrões ou toques da vida sexual.
A modernidade exacerbou o conceito da formação do self e da autonomia absoluta onde a necessidade pelo outro passou a ser considerada como algo neurótico. Ideias como: “Se você pode fazer sozinho... Então faça!”
“Você deve desenvolver o Self Service: autonomia; liberdade absoluta; se amar e se bastar totalmente”.
A amplitude deste conceito foi tão difundida que trouxe em muitos o constrangimento em admitir a necessidade de sentir que pertence a alguém ou que necessita de um olhar de apoio e amparo.  
A mentalidade do self distorcida de servir por si, de viver por si trouxe esse sentimento de solidão acompanhada que as pessoas carregam atualmente.
Quantos estão cercados de pessoas, inseridos em vidas sociais e profissionais, mas com medo de criar vínculos, com medo de aprofundar as relações pelo medo de criar a dependência? Muitos aderiram a esta ideia de independência absoluta sem perceberem as consequências emocionais negativas que derivam daí. Estão plenos fora, mas impedidos de se alimentar dentro.
Estão ligados, mas sem conexão.
Não se vai fundo nas entregas para preservar a autonomia. 
O que isto gerou?
- A sensação de desamparo - A sensação de solidão acompanhada.
Desfizeram os nós neuróticos da simbiose, mas esqueceram de manter os laços.
Criou-se a “Síndrome do Eu” e a “Sociedade do Fico, Mas Não Permaneço”, onde se está longe de oferecer a certeza das permanências.
No mundo atual, o corpo objetivo se relaciona, mas o corpo subjetivo está impedido por este conceito de modernidade de viver os elos.  
Eis o lema de uma falsa psicologia: “Independência em tudo ou morte das relações e obrigações”.
Clarice Lispector tem a expressão “Somos o Outro do Outro”, onde preserva a si quanto ao risco da absoluta fusão, mas sem invalidar que para ser um eu deve haver o outro que nos une e com isso diferencia.
A ideia de treinar a independência absoluta congela a nossa humanidade e traz a dificuldade de entrega que atualmente assistimos nas relações de amizade, sociais e íntimas.
Para se desfazer os nós que atavam as pessoas até os anos 50, numa condição de anulação e recalque, esqueceram de preservar os vínculos. Esqueceram os laços ao desfazerem os nós.
Hoje considerados “espertos” são os desatados, são os “Self Live Emotion”.
Somos feitos das misturas desde o óvulo e o espermatozoide que se fundem através do abraço profundo de dois corpos que se tornam nossos pais. Evidente que para nascermos temos que sair do outro, mas para encontrar logo outro que nos acolha, ampare e depois tantos outros que nos ensinam... e de outro em outro nos tornamos o Eu.
Um Eu capaz de se preservar, mas capaz de se entregar.
Na matéria de capa da Revista de Domingo do dia 16 de junho, discorrem os depoimentos sobre as dores vivenciadas nas perdas e no consequente doloroso rompimento dos laços e ali se vê o papel fundamental dos novos elos que são gradualmente estabelecidos para se manter o laço com a vida.
Você precisa de ar para respirar, vai treinar poucas quantidades para não ser dependente? Vai tentar se bastar sem água? Sem proteínas?
Apenas para não ser dependente vai se tornar anoréxico? 
Para evitar os excessos se mergulha no nada?
Foto de Lilya Corneli - A frieza da solidão

A armadura afetiva seca a alma...
A alma se hidrata de fertilizantes da convivência com ternura e gratidão do encontro.
Os laços que damos nos cadarços dos sapatos dão firmeza no caminhar... Calçam a nossa existência. Sem eles com o tempo nos tornamos descalços e suscetíveis a machucados ao andarmos.
Laços estão longe de serem Nós.
Crie laços em tudo que faz, em todos que ama para que sua alma possa se sentir conectada e portanto acompanhada.
Como tão bem disse Clarice Lispector: Pertencer é Viver!!!


sábado, 15 de junho de 2013

Lançamento do Pense Bem no Rio de Janeiro

Recebi na 5a feira, dia 13, uma declaração por escrito de Laura Gasparian – proprietária da Livraria – informando que o lançamento do Pense Bem no dia 11 de junho bateu o recorde de vendas e frequencia em noite de autógrafo em todos os 35 anos da história da Argumento.
Obrigado a todos que com o carinho da presença criaram este momento na minha vida.
Nestas fotos que recebi, alguns flagrantes do lançamento que para mim parece um sonho.
Comentário sobre o livro:

“Adorei a delicada mistura de psicanálise, relato pessoal, cinema e literatura. 
Isto sim é um saber pulsante!!! Parabéns!!! Já estou esperando o próximo. Abraços.” 

Marcelo Elmann
psicanalista

O autor com Gisella Amaral e Virgínia Diniz Carneiro

Manoel Thomaz Carneiro entre Alessandra Curvello, Geórgia Buffara, Erika Sales e

Luiza Dale e Andrea Correa

Andrea Rudge e Renata Fraga

Manoel Thomaz Carneiro e Maria José Prior

Maria Pia Marcondes Ferraz e Carlos Montenegro

Manoel Thomaz Carneiro e a atriz Giulia Gam

Maria Clara Tapajós e Manoel Thomaz Carneiro

Christiana Malta e Manoel Thomaz Carneiro

Manoel Thomaz e Rosane Messer

Cristiane Gama e Cristina Friedheim

Paula Accioli, Angela Massoni e Stella Abinader

Sonia Arrigoni e Manoel Thomaz Carneiro

Angela Massoni e Manoel Thomaz



Fotos: Armando Araújo

terça-feira, 11 de junho de 2013

Fazer Alegrias e Felicidades

Nos fins das tardes de domingo, quando sento no meu pátio para estudar, ouço o burburinho das pessoas que ficam no bar ao lado do meu prédio. Quando começa a transmissão do futebol, as vozes se potencializam nos gritos de excitação, às vezes raivosos, às vezes contentes. Tudo acontece como se fosse a sonoplastia de algo invisível para mim, mas que posso bem imaginar através dela as cenas e com isso acompanhar as sequências.
Muitos poderiam afirmar que ali está a demonstração da felicidade humana através de uma diversão. Tal conceito é um engano.
As pessoas misturam as palavras porque confundem sobre a diferença entre alegria e felicidade.
Emoções e sentimentos possuem diferenças e são respostas a processos distintos em relação à vida.
Uma viagem a Paris, ao Vietnam ou a Disney são garantias de felicidade?
Quando seu time faz um gol, o seu namorado agradece a sua gentileza, quando se é promovido no trabalho, quando se compra um carro, quando se constrói uma casa vive-se eventos positivos que atingem o nosso sistema límbico, localizado no cérebro que produz como resposta uma emoção.
A palavra emoção deriva de “movere”, ou seja, um acontecimento positivo nos move, nos mobiliza e produz uma resposta emocional.
Emoção é uma resposta do nosso sistema cerebral de prazer ou desprazer diante de um evento do nosso dia.
Seu time perdeu? A tristeza virá como resposta, mas infelicidade é outra questão.
Alguém que você gosta muito telefona e ainda conta uma boa notícia? Isso terá o poder de “mover” a alegria, mas a felicidade é igualmente outra questão.
Portanto quando o seu noivo pede você em casamento num momento especial, como resposta emocional terá a alegria, mas está longe de ser a garantia da presença da felicidade.
O que é a felicidade?
É um sentimento e está relacionado com o modo pessoal de se avaliar, de como você se percebe em relação ao seu corpo e em relação as suas competências.
Por isso uma pessoa pode estar vivendo momentos de grandes alegrias e carregar a sensação de infelicidade intrínseca e, portanto se considerar infeliz.
O que se compreende sobre a filha de Michael Jackson? Paris Jackson tenta o suicídio cercada de aparatos de riqueza, cercada de potenciais razões para a alegria, mas denuncia através desta tentativa que está desabastecida de algo interno.
As pessoas torcem para que as coisas boas aconteçam e muitas vezes elas chegam, mas são desperdiçadas porque estão destituídas de um senso de valorização de si por si mesma. Sob um trecho da entrevista do médico Dr Luiz Roberto Londres, posso ajustar a esta ideia quando afirma que “Hoje a gente vê que outras dimensões estão sendo mais valorizadas que as pessoais: tamanho, empresa, dinheiro, conglomerados.” Se ganha fora e se esquece de ganhar outras potências dentro de si.
Quantos afirmam de maneira impaciente ao que não está bem: “Você tem tudo e não é feliz!” São os analistas selvagens que condenam e julgam a dor do outro sem o conhecimento psicológico das verdadeiras causas.
Sempre me vem neste aspecto as pessoas como Marylin Monroe que atingem a notoriedade sem se transformarem internamente com o que conquistaram. Continuam a carregar um menino diminuído, uma menina insegura desabastecida da noção de capacidade ou competência pessoal. 
A felicidade se alimenta da ideia saborosa que damos a nós sobre algum valor pessoal, sobre uma competência diante de um propósito de vida.
Sabe-se por estudo que quando uma pessoa ganha um grande prêmio, com uma soma em dinheiro, o que ela adquire promove um estímulo de excitação que terá a capacidade de mantê-la em estado de alegria por dois anos, mas que de modo algum irá modificar o registo da felicidade.
O que fazer?
Passar a encontrar um propósito na vida. Se apropriar dele e se investir da percepção das competências internas para realiza-lo.
Você sabe o seu?
Lembro-me de uma amiga que me disse que o dela era passar amor. Orgulhava-se muito disso e ultrapassava todos os problemas cotidianos para sempre viver este aspecto.
Como disse o filósofo Espinosa a terra é uma substância que se mantém pelo propósito de continuar sendo ela. Joga-se tudo de poluente e ela continua se refazendo sem perder o seu propósito de existir. A Terra é insistente, pois estamos só maltratando-a com poluentes imensos.
Um excelente jogador de futebol tem o propósito de jogar e fazer a sua parte com competência. Se for famoso, mas não tiver noção de valor pessoal pode até viver a alegria do sucesso, mas não irá conseguir experimentar a vivência da felicidade.
Felicidade está longe de ser euforia.
O meu propósito na vida é explicar a dor de modo que cada um que passa por mim possa saber trata-la e muitas vezes evita-la.
Ultrapasso as barreiras que a vida me impõe, sejam elas físicas ou não e me instigo na continuidade porque sei para onde ir, o porquê ir e para que ir.
Outro dia estava com uma dor imensa devido a uma virose potente que me invadiu. Tinha três aulas a dar e decidi ultrapassar o que sentia para realizar o meu propósito. Ao final da terceira turma, mais do que alívio de ter cumprido um dever, mais do que a alegria de ter dado e vivido momentos tão bons com meus alunos, senti a felicidade de realizar o meu propósito e a felicidade derivada da percepção da força que meu jogador interno me liberou para eu fazer o gol dos Propósitos.

Pode-se escolher ser um grande pai, um grande médico, uma grande doadora de amor, um grande aconselhador, o importante é que se abasteça com a certeza de suas certezas.
O importante é que você possa entrar em campo consciente do porquê corre de um lado para outro, driblando os adversários para fazer o seu gol. 
O importante é que você sempre corra através de um jogador interno seguro de seu valor.
Faça um gol em seus propósitos e grite sua vitória na conquista da felicidade.
Ponha seu time em campo.

Imagens: GettyImages