domingo, 1 de janeiro de 2023

Nosso Tempo Em Nós

 


Nos valores informais dos tempos atuais, chamado por muitos de Pós Moderno ou Sociedade Líquida, a questão da culpa e do sentido íntimo para existir passou a perder relevância… 
Hoje a moral psicológica está no narcisismo… Temos na cultura coletiva a ideia da felicidade como um objetivo supremo… 
Portanto, conviver com a frustração e alguns vazios, com limitações da ordem do real, falhas e imperfeições de cada pessoa passaram a ser condenadas e portanto, nesta ótica, entrar em contato com estas sensações de incompletudes, é vivenciada como falha da pessoa em atingir o “ideal” estabelecido sob a ordem da plenitude.
Para conquistar este objetivo, uma grande parte das pessoas passou a buscar permanentes estímulos… 
Algumas percorrem a vida na construção de aventuras contínuas sob a forma de intensas viagens, do sexo com parceiros múltiplos e outras experiências que despertem doses de adrenalina. A impermanência nas rotinas, a incapacidade de manter o foco nas conversas profundas, nas leituras mais longas, nos filmes mais lentos ou mesmo de duração maior, são evitadas por um grande número de pessoas…
A cognição se acelerou, a fala ficou mais rápida com frases mais encurtadas e tudo deve acompanhar a velocidade atual que o existir na vida passou a acontecer.
As conversas se tornaram mais fragmentadas… Nosso ritmo de contemplação e reflexão encurtou no tempo e aumentou na intensidade… 
Existimos envoltos no contexto do intenso e a intensidade cotidiana gera em nós tensão e agitação. A existência ansiosa se tornou um traço da atualidade humana.
Os trens TGV que circulam pela Europa numa velocidade enorme, faz com que possamos chegar rápido ao destino, mas tem a consequência das paisagens passarem velozmente, que nem temos tempo de contemplar o percurso… 
Assim, nesta forma, partimos e chegamos… 
Faço com este aspecto um paralelo com o tempo interno que cada um dá ao momento.
Fui com uma amiga certa vez a exposição do Picasso no Grand Palais em Paris e ela percorreu tudo numa tamanha velocidade, que parecia turbinada pelo TGV e de súbito me disse: Tá visto!!!! Aonde vamos jantar?
Tive vontade de responder: “No Burguer King”, onde seria tão rápido quanto o “time” dela.
Tenha certeza que não foi a única vez que vivenciei situações semelhantes… Já passei com um conhecido no Masp e no Itaú Cultural nas exposições simultâneas das obras de Beatriz Milhazes em 2021, este modo avião… Também levei algumas pessoas em pontos turísticos no Rio em que elas me pareciam não estarem em conexão com o entorno.
Tem um poema no livro “Sempre é Outra Superfície” da Sandra Ling que nos fala: 

“entre dois pontos
uma passagem contida
minúscula geografia 
habitada”

Exato! Somos tempos minúsculos diante da eternidade do universo. Habitamos brevemente na geografia do tempo que é dado a cada um de nós… 
O que faz expandir este aspecto breve é a subjetividade do nosso olhar em cada instante. Isto me faz lembrar um grande conselho que minha mãe me deu na hora do embarque para a primeira viagem que fiz aos 11 anos pelos Estados Unidos.
Assim ela me disse: “Mané preste atenção em algo que vou dizer que vai servir para esta viagem e para sua vida… Olhe três vezes tudo que visitar… Uma vez para o agora, outra para a memória e outra para eternidade.”
Essa fala entrou em mim de forma tão forte que ela se  instalou como parte do meu modo de ser e portanto, viver.
Dizem que tenho uma memória fabulosa… É verdade… Tenho certeza que devo a este modo de experienciar as situações… Guardo falas, cenas, roupas, sons… Sou realmente abastecido por tudo que vivi até hoje.
Passar pela vida com pressa… Já pensou? É chegar ao final de cada coisa e dizer: “Tá visto”… Talvez até esteja visto, mas será que foi sentido, refletido, apreciado?
No último suspiro inevitável, qual filme passa na “Pessoa TGV”?
Nem respondo… Acho que está claro.
Fui à Porto Alegre para uma leitura e reflexão de dois poemas do livro da Sandra Ling que citei nestas linhas e quando comentei que completava 42 anos da última vez que tinha ido a Porto Alegre as pessoas ficaram impressionadas quanto a minha lembrança dos lugares  
que visitei e da churrascaria que fui no bairro chamado Petrópolis… Lembro o que comi e que estacionei o carro numa ladeira… 
Devo ter o “Canal Viva” dentro de mim e sintonizo o “Vale a Pena Ver de Novo” algumas vezes através da minha memória. Isto de modo algum representa que só vivo no passado, mas também esquecer demais é apagar a própria vida.
Esquecer demais se fazem tempos morridos em você… 
Pense nisto!
Quem sabe neste novo ano que inicia, você tenha menos pressa no olhar e mais apreço ao estar… 
Como diz Sandra Ling em outro poema: 

“Sem mais 
é noite”

A vida passa rápido ou você passa rápido demais por ela?
Sem mais é noite do nosso existir…
Portanto seja Olhos Abertos.
Viva sob a dimensão dos três olhares este 2023…
Sem mais é fim de ano de novo?
Pense nisto!!!

Manoel Thomaz Carneiro

Psicanalista / Psicofísico

Créditos das Imagens: Sandra Ling

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